Publicado por: acontur | maio 12, 2010

O Fogo nos Campos de Cima da Serra

O Fogo nos Campos de Cima da Serra.

Primeiro vieram os espanhóis e trouxeram muito gado para estes campos. Depois vieram os portugueses e expulsaram os espanhóis, que fugiram e não puderam levar todo o gado. No meio desta confusão, os índios daqui, de cima da serra, viram que os brancos tinham deixado gado e que era uma caça bem mais tranqüila, portanto mais comida e mais fartura. Dizem que uma vez caiu um raio e queimou uma grande área de campo. Os índios observaram que o gado se aglomerava nessa área, que brotava novinha depois do inverno e devia ser muito bom pro gado. Provavelmente começou assim o manejo da queima de campo. Os antigos têm a manha. Tem que observar o tempo. As geadas. As chuvas. Os ventos frios, que “queima” toda vegetação, enfim, é uma sabedoria passada de geração a geração. Quem mora em Cambará conhece aquele cheirinho de campo queimado. Cheiro de campo queimado lembra que logo, logo os campos vão estar verdinhos e o gado vai engordar. Mas, isto era antes. Hoje, se fala que este manejo é muito prejudicial para a natureza, comparam nossa queima de campo com as queimadas em florestas para fazer roças. Nossa queima de campo é a forma menos impactante para se criar gado, e isso vem há muitos anos. O melhor para a natureza seria não causarmos impacto nenhum, mas isso é utopia. Para o ser humano sobreviver e ter todos os luxos que conquistamos é preciso impactar de alguma forma. Existem coisas que poluem e degradam muito e em escala maior que a queima de campo. Portanto, penso que queimar campo já faz parte da cultura e que prejudica menos do que 5 mil hectares de um tipo de árvore só e que ainda despeja nos rios, dia e noite, produtos químicos. Pensar nisso é bom e faz a gente olhar as coisas com mais atenção, pesar os prós e contras e desenvolver a capacidade de ter uma opinião responsável, analisando os vários ângulos de uma economia.

Texto:  Silvana de Oliveira

Anúncios
Publicado por: acontur | março 6, 2010

Cambará, Mostra Tua Cara!

Cambará, Mostra Tua Cara!

Cambará do Sul - lianecastilhos

(Uma visão de quem “trilha” a sustentabilidade há 12 anos – Silvana de Oliveira)

Sou condutora local e atual presidente da Associação de Condutores, a ACONTUR. Pretendo mostrar aqui meu pensamento sobre o turismo em Cambará.

Comecemos por perguntar: O que estamos vendendo? Ou, o que faz as pessoas do mundo inteiro vir para cá? Prá nós da Acontur, 95% das pessoas vem prá visitar ou revisitar o Itaimbezinho, a grande estrela e principal atrativo do nosso turismo.

Inicia aí a raiz do problema, uma grande parte da população desconhece nossa grande estrela, outra parte tem uma visão distorcida do produto principal. Explico: o turista chega à cidade (e chega cada gente estranha!), geralmente com o objetivo de “ver os cânions”. Aí vem a parte do povo de Cambará, como vamos informar qual a melhor maneira de conhecer os cânions? Mais um problema, quase todo mundo (me incluo também) diz que para o Itaimbezinho não precisa de guia, pois lá existe uma estrutura e a estrada é boa (?).

Então ta! O turista pega seu carro e vai “sozinho”, ou seja, ninguém vai conversando, apresentando a cidade, quantos vivem aqui, como vivem, economia, cultura, história da cidade e do Parque. O guia local, ou condutor faz o que poucos na cidade fazem, sensibiliza o vivente prá que ele fique aqui, almoce, jante, conheça outras belezas de Cambará, vá à farmácia, ao posto, à padaria, mercado, lojas, etc. Olha quanta coisa nós vendemos na nossa guiada, mas parece que poucos reparam nisso. Pois mandamos os turistas sozinhos pro Parque, deixamos que eles tirem suas próprias conclusões sobre nossa organização. Aí está o X da questão. Turistas vão sozinhos, por uma estrada precária, chegam lá e pedem informações. Mais uma vez dizem prá eles irem sozinhos prá trilha, mas que tenham modos e eles vão tirar suas próprias conclusões de tudo que irão ver, pois o Parque também tem estrutura precária, sem lancheria, um só bebedouro, sem condições de abrigar muitos da chuva ou do sol escaldante. Enfim, volta o turista sozinho, pela estrada precária, passa naquela cidade pequena (qual o nome mesmo?), sem banco 24h prá ele comprar coisas, levar lembranças. Chega em casa de alma lavada, viu o magnífico Itaimbezinho, tirou fotos lindas que botou no Orkut, que mostrou aos amigos e conclui (sozinho) que o povo do lugar não sabe explorar o potencial turístico da região. Com esse exemplo quero salientar que não culpo ninguém em especial, mas culpo todos nós. O turista quer o que toda população de Cambará quer: qualidade de vida, atenção, conforto, tranqüilidade, prosperidade. Então temos que pensar primeiro na nossa estrutura, em como vamos atender esses 50mil visitantes por ano que vão ao Itaimbezinho, temos que aproveitar isso! Temos que por nossas cabeças prá pensar em como vamos fazer prá que eles fiquem aqui o que mais podemos oferecer? Hummm… Temos frio, cenários prá novelas, comerciais, minisséries, temos cachoeiras, tradição gaúcha, comidas típicas, cultura serrana e muitas histórias prá contar. Temos tantas qualidades e nos perdemos por falta de organização e auto-estima. Qualquer pessoa que venha de “fora” e der um palpite, pronto! Uns endeusam os forasteiros, outros fazem beicinho e já não brincam mais. Que é isso? Estamos em crise. Começou com a gripe suína, em junho, depois as chuvas intermináveis e a crise financeira mundial. SURTAMOS! Sempre é possível solucionar os problemas, superar crises temos que fazer que nem o cara aquele: beber, cair levantar. Podemos nos organizar por setores. A Acontur faz isso há 12 anos. Já em 1997, focamos nas trilhas, principal serviço de visitação aos parques, nós é que calculamos quanto custa uma trilha. Todos deveriam fazer isso e não ficar metendo o bedelho no preço dos outros!

Ao poder público o que é do poder público. Vejam que temos os três poderes: municipal, estadual e federal. Ao município, estrada pro Fortaleza e outros atrativos. Do município temos a Casa do Turista, que eu diria mal localizada, pois está no fim da rua principal, mas cumpre seu papel e tenho consciência e reconheço os esforços de aperfeiçoar o serviço. O município poderia ajudar mais na formação de mão de obra qualificada, um conselho municipal de turismo mais atuante com verba significativa (está sendo reativado por um grupo de pessoas bem intencionadas). Outra coisa importante é a inserção de toda a população (toda mesmo). Uma grande parte da população é BR (baixa renda) e não consegue ser inserida. Os turistas reclamam que temos poucos restaurantes, bancos, lojas. Que as estradas são péssimas, e aí eu falo: se é ruim pro senhor, que passa aqui 1 dia, imagina prá mim? Que há 12 anos vivo como guia e além de ter que sacudir 1 hora na estradinha ainda vou ouvindo reclamações violentas sobre a nossa pouca estrutura? Querem saber o que eu digo prá esses senhores? Todo mundo pensa que nós condutores falamos mal de todo mundo. Errado!

Tentamos sempre amenizar a má impressão, comentando da dificuldade da nossa população, comparamos Cambará com outras cidades pequenas, falamos das estradas do Brasil inteiro que estão em péssimas condições, enfim quando chegamos ao cânion, sensibilizamos as pessoas na grandiosidade da natureza. Brincamos que a estrada pro trabalho é ruim, mas que nosso “escritório” é bonitinho. Em meio a conversas e brincadeiras as pessoas ficam mais calmas, esquecem o stress da cidade grande, expandem suas almas nos campos infindáveis da Fortaleza. A realidade é dura, voltemos pro turismo de Cambará, lá no começo da conversa: quase ninguém indica guia porque temos poucos guias e temos poucos guias porque as pessoas não indicam, viu só? Está tudo relacionado. Prá roda do turismo girar em Cambará  é preciso mudar muita coisa ainda. A principal mudança está na relação das esferas envolvidas. Na iniciativa privada, prá alguns, falta ética e profissionalismo. Exemplo: Não basta o meu empreendimento ir bem é necessário que os outros estejam indo mal. Seria muito melhor a união do que a competição desleal.

Ah, ainda nem citei o poder estadual e federal. Do estado temos a Setur atuante no Parque e na Casa do Turista, proporcionando emprego pros jovens de Cambará. É bom e saudável prá nós, mas parece que anda meio fraca esta ajuda. E a estrada pro Itaimbezinho podia ser melhor, né?

Bueno vamos prá esfera federal, tchan, tchan, tchan, tchan, ela é simplesmente a dona das estrelas do nosso turismo. Vamos pensar assim, se é do governo federal é de todos brasileiros e somos brasileiros então é nosso também, portanto temos direitos e deveres. Temos que preservar. E tem um monte de coisa que não podemos fazer e ao mesmo tempo queremos e precisamos desenvolver economicamente o município, pois o pinnus não tirou, até hoje, a população das trevas da ignorância e da pobreza. Temos direito a qualidade de vida, atenção, conforto, tranqüilidade e prosperidade.

Às vezes ficamos furiosos porque o Parque não abre nas segundas e nas terças, mas e daí galera? O Itaimbezinho recebe em média, 50 mil pessoas por ano. E nós? Nem sabemos direito quantos passam aqui, sem noção, como diz meu filho. Pensem bem, antes de brigar com os chefes do Parque, vamos olhar prá nós mesmos, vamos respeitar as hierarquias. Alguns de nós somos tão bons de coração, que adoram economizar o dinheiro do turista e dizem:

– Não vá à agência, é muito caro!

– Prá que levar guia, vai sozinho que é fácil!

– O restaurante X é um roubo.

– A pousada do fulano é um absurdo, pagar tudo isso só prá dormir?

– O mel do sicrano é ruim e muito caro.

É ou não é assim? Eu, quando me perguntam de pousadas e restaurantes, digo que tem prá todos os tipos de bolso. Tem pousada de 80 reais e de 900 reais. Tem comida de todo tipo, tem truta, galeto, grelhados, fondi, pizza, churrasco, pastelão, Xis. Pro mel já temos selo de qualidade. Deixemos o turista escolher. Vamos parar de falar mal uns dos outros, nossa opinião tem de ser profissional, vamos lavar nossa roupa suja entre nós. Se o turista fala mal do Parque, cabe a nós contemporizar, dizer que estamos trabalhando para melhorar, que as relações entre esferas públicas e privadas é difícil mesmo. Mas não, tem gente que adora um barraco, desaba sobre o turista todas suas mágoas e rancores e isso não leva a nada.

Vamos indo pros finalmentes, tanta coisa a dizer e também tanta coisa prá fazer, sejamos otimistas, temos o mais importante, que é o atrativo magnífico (imaginem quanto não pagaria o povo de Gramado e Canela por um Itaimbezinho, ou uma Fortaleza? Hãm?). Antigamente nossos avós iam pros “beiço do perau”, hoje vem gente do mundo todo prá caminhar na borda dos cânions, e assim minha gente vamos amansando pro tal de turismo, que com certeza é a economia mais sustentável do planeta. Mas prá isso temos que nos informar mais, baixar a guarda, colocar a disposição de todos o que temos de melhor, sem mesquinharia, sem picuinha.

Precisamos preservar a natureza do nosso Cambará. Entender de uma vez por todas que o turismo é uma engrenagem e precisamos que cada um faça sua parte, senão não anda

Agradeço a todos que leram este desabafo até aqui e desculpem alguma coisa. Somos um povo hospitaleiro e bom, prá quem vem de fora, sejamos assim também entre nós. Por isso eu peço:

CAMBARÁ, MOSTRA TUA CARA!

Texto: Silvana de Oliveira

Foto: Liane Castilhos

Categorias